CALHETA DO VELHO
Estava lá, desde o princípio. Via-o todos os dias, mas não dava conta da sua existência. Era daquelas coisas que tropeçam nos nossos pés, mas ignoramo-las; de tão familiares, não as vemos e passam despercebidas. No entanto, estava lá. Todos os dias cumpria, com profissionalismo, a sua missão. Fazia a sua luz chegar até onde era necessária, para levar a mensagem, aos navegantes, de que terra firme se aproximava.
Embora escassos os quilómetros, não era caminho fácil. O encarregado não se aborrecia, contudo, da rotina diária que o obrigava a velejar até à praia do ilhéu, para depois palmilhar a vereda sinuosa que ia dar à vizinhança da calheta. Não sei porque lhe chamavam assim. Mas era esse o nome por que se dava a conhecer: Calheta do Velho. Um pequeno porto na costa sul, mais para lá, do ilhéu fusiforme, estreito e comprido, que mais se assemelha a um jacaré adormecido no meio da ampla baía. Calheta do Velho deu também nome ao farol que, desde tempos que de todo ignoro, estava lá instalado.
O Farol da Calheta do Velho estava lá, todos os dias, na minha frente; eu o via mas não dava conta da sua realidade. Até que um dia, muito tempo depois, já adulto, fui até lá. Entrei pela porta sem fechadura, de uma ampla sala vazia, salvo erro, de chão de terra batida. Havia vidros partidos nas janelas. Os rebocos já não eram frescos nas paredes. Não havia quadros murais, nem secretárias, nem arquivadores, nem utentes. Que mais vi? Não sei dizer...
Saí pela porta contrária. Subi os degraus da escada de pedra pela qual, diariamente, o senhor faroleiro ia e vinha para cumprir o ritual de acrescentar petróleo e acender o queimador instalado na torre, não se desse o caso de faltar aviso à navegação. O misterioso farol que desde criança eu via, todas manhãs, da janela da minha casa, no horizonte que se estendia à frente de nós, com a silhueta de um bule de chá, deixou de ser para mim uma realidade ignorada.
Folhei a história do Calheta do Velho. Toda ela entrelaçada com décadas sem conta da vida de uma população toda, de que eu fazia parte, gente que entrava e saía sob a guarda do Calheta do Velho. Era a sentinela que respondia pela segurança da terra. Lembro-me das minhas muitas idas e vindas a que me vira obrigado, nos idos anos da adolescência e juventude, na pele de estudante migrante. Santa Margarida primeiro, Maria Teresa (quantas vezes!), Sal Rei, Arlette, Neptuno, Mira Terra, Frigorífica V e outros e outros, levaram-me e trouxeram-me de volta, com sucesso devido à fidelidade do "Calheta do Velho". Eu tinha-lhe grande dívida, mas faltava-me a consciência disso! É por isso que, na minha única visita ao Calheta do Velho, não me ocorreu, sequer, deixar gravado meu nome nas suas paredes, ou nas rochas à volta, em sinal de homenagem. Quando te vir de novo, Calheta do Velho, espero saldar a dívida!
Veio-me, agora, à mente este nome de recurso para uma página que pretende estar presente, aqui, ser um farol. Acender todos os dias uma luz, brilhar, levar e trazer navegantes em segurança... fazer-se familiar a muitos, sem se deixar ignorar... Neste particular, demarque-se do Calheta do Velho. Em tudo o mais, seja o meu saudoso
Farol da Calheta do Velho.
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