na Bíblia, na História e na Prática
por George Allen Turner
Prefácio
A nossa era, em comparação com todas as anteriores, é menos tranquila, menos passiva. Não obstante, também se caracteriza pela introspecção, a busca de respostas. Muitos andam em busca de novo significado e valores. As Sagradas Escrituras todavia são-nos o guia mais seguro para a verdade e a realidade no que diz respeito a tais valores espirituais. A actualidade destas verdades bíblicas nunca antes foi tão óbvia e tão necessária como é hoje.
Estes ensaios sobre a doutrina da santidade bíblica, especialmente como a sustenta a tradição wesleyana, foram apresentados em diversas instituições. Neste livro são apresentados, essencialmente, como foram desenvolvidos em forma oral. A audiência constituíu-se quase sempre de estudantes universitários, estudantes graduados de cursos teológicos, e clérigos. Não obstante, os ensaios são apresentados em um estilo popular, sem muitos termos técnicos nem documentação. Estas mensagens não têm o propósito de reavaliar ou reextruturar as doutrinas bíblicas nem o pensamento wesleyano. Ao contrário, com elas só se deseja aclarar, explicar, as doutrinas básicas e fazer notar sua actualidade na segunda metade do século XX.
Sinto-me profundamente agradecido ao reitor e à faculdade do Serminário Teológico Nazareno, pelo convite que me fizeram para apresentar as conferências Gould sobre teologia bíblica. Bem assim, pelos convites semelhantes da Universidade Cristã Osaka, do Japão; da Universidade Teológica Holy Light, de Taiwan; dos seminários União Bíblica da Índia e Colômbia; do Instituto Bíblico do Sul da India; da faculdade do Instituto Metodista Livre de São Paulo, Brasil; e da Universidade Nazarena Trevecca, de Nashville, Tennessee.
Publicamos este livro pelo desejo de que um maior número de pessoas conheçam estas mensagens. Agradece-se , em tudo o que vale, aos editores o tornarem possível esta publicação. Espera-se que a palavra impressa seja tão bem recebida como o foi a apresentada oralmente. A chamada à vida de santidade não é só o maior dos privilégios, mas também um desafio que não se pode tomar de ânimo leve.
- George Allen Turner
Capítulo 1
A Mensagem de Santidade na Bíblia
A busca de uma vida de semelhança com Cristo, sobre a qual se faz muito finca-pé no Novo Testamento e só ocasionalmente em séculos subsequentes, particularmente sob o ministério de João e Carlos Wesley, é uma força em contínuo movimento. Contam-se por milhões os que crêem na necessidade da vida de santidade, alguns dos quais pertencem a igrejas de santidade, e outros a igrejas "populares". Neste estudo nos ocuparemos da mensagem wesleyana só no grau em que representa o que se relaciona com a revelação de Deus ao homem e só no grau em que representa o ensino do Novo Testamento.
A. Elementos Essenciais da Mensagem
Quais são os elementos essenciais desta mensagem neotestamentária de acordo com a interpretação de Wesley e de outros? Nestes estão incluídos:
1. A certeza do perdão dos pecados. Eis aqui o significativo da experiência de João Wesley em Aldersgate. Nesse lugar, pela primeira vez, obteve a certeza do perdão de seus pecados, de que Cristo era seu Salvador pessoal. Ainda que se havia distinguido como homem de profunda piedade e rectidão pessoal por muitos anos, nessa ocasião, segundo ele, pela primeira vez experimentou a certeza de sua relação com o Senhor.
2. O companheirismo dos “nascidos de novo”. A instituição que testificou da importância do companheirismo dos crentes foram as reuniões ou “classes” metodistas originais. Seguindo o modelo de companheirismo dos crentes de Herrnhut, Alemanha, os primeiros metodistas reuniam-se em grupos de 12 pessoas sob um dirigente para descobrir suas almas perante eles mesmos e diante de Deus. Este companheirismo constituíu o núcleo do povo chamado os metodistas.
3. O uso dos meios da graça. Wesley compartilhou o ponto de vista sobre este tema com muitas outras pessoas cuja experiência cristã reconheceu e de cujo companheirismo desfrutou. Wesley e seus seguidores insistiam em que os meios da graça não eram “obras da carne”, mas canais pelos quais a graça de Deus opera normalmente. Assim evitaram o que consideravam como a armadilha da anarquia ou antinomianismo, o engano de que a fé sem obras é suficiente.
4. O testemunho. Fez-se fincapé acerca do testemunho como nunca havia sido feito desde o primeiro século da era cristã. Os evangélicos do século XVIII testificaram nas casas, nas ruas, nas tendas, em toda a parte. Por isso Wesley disse: “O mundo é minha paróquia”.
5. A busca da santidade. Este foi o interesse primordial de Wesley, desde a idade de 25 até aos 38 anos, quando descobriu o caminho da fé; desde então converteu-se na principal testemunha e exponente da doutrina.
6. O amar a Deus sobre tudo. Que implica a santidade? Quando foi chamado a comparecer diante do bispo anglicano de Londres para fazer a defesa das suas “heresias”, Wesley declarou que ensinava principalmente o amor a Deus com todo o coração, alma e forças e o amar ao próximo como a si mesmo. Este ensinamento, concluíu Wesley correctamente, é aceitável a todos os homens. Quem pode objectar ao amor? Quiçá o hino que melhor descreve o génio do avivamento metodista seja o seguinte, o qual é incluído em quase todos os hinários evangélicos e é considerado um dos dez maiores hinos de todos os tempos.
Só sublime, amor divino,
Gozo, vem do céu a nós;
Firma em nós o teu lar humilde,
De fé dá-nos rico dom.
- Carlos Wesley
Lutero considerava Deus principalmente como juiz; Calvino, como governador; porém Wesley foi impressionado mais pelo amor de Deus. 2 Não foi presa de um sentimentalismo extremo graças ao seu alto conceito da santidade de Deus. Segundo Wesley, quem professava amar a Deus devia, ao mesmo tempo, viver rectamente. Com frequência afirmava que a santidade significa “possuir a mente de Cristo e andar como Ele andou”. Esta é a vida centrada em Cristo.
7. A vida de santidade como pureza doutrinal. Ainda que originalmente não se organizaram como um grupo teológico, os primeiros dirigentes metodistas preocupavam-se com a sã doutrina. Em ocasiões, os Wesleys tiveram que defender a fé, o que fizeram com admirável êxito. Uma das melhores evidências da capacidade apologética de Wesley encontra-se no seu discurso sobre “O pecado original”, dirigido a um influente contemporâneo seu que apoiava a posição de Pelágio.3
8. O serviço social era outro elemento da definição wesleyana da vida de santidade. Os membros do “Clube Santo” de Oxford, muito tempo antes de Aldersgate, preocuparam-se não só com assistir à igreja mas também com visitar cárceres, pregar nas ruas e ajudar aos pobres. Outra evidência de sua preocupação com o serviço social manifestou-se na organização das “reuniões de classes”, cujo dirigente tinha a responsabilidade de reunir oferendas para serem distribuídas entre os pobres.
Em uma de suas primeiras declarações de propósito, os metodistas expressaram que sua tarefa consistia em “reformar a nação e pregar a santidade em qualquer parte”. Não se recluíam nem se isolavam do mundo em busca de uma vida melhor; antes pelo contrário, eram práticos. Em certo sentido eram místicos, pois preocupavam-se primordialmente em agradar a Deus, porém, reconheciam que sua chamada também incluía o testemunhar por palavra e obra aos seus contemporâneos. Depois de dois séculos de história,torna-se óbvio que os primeiros metodistas “não andavam pelos ramos”, mas além de resgatar almas ao fogo, queriam também apagá-lo.4 Eles interessavam-se tanto na raiz dos males como nos frutos.